cigarro.
Acendi meu primeiro cigarro antes do meu primeiro beijo, eu devia ter 15/16 anos, algo assim.Mesmo entorpecido pelas campanhas antitabagismo que frequentavam a minha escola e residência desde a infância, e a imagem ainda tão longínqua e nítida do meu avô tossindo feito um louco, devido ao cigarro e ao cachimbo que ele fumava.Velhice para mim tem cheiro de tabaco no cachimbo, um quarto cheio de papéis e fotos antigas com algo escrito no verso, um rádio antigo, um conselho repetido “Coma geral!!”e uma justificativa para não jogar o que é velho “Nunca aprendi a mexer nesses rádios modernos,cheios de coisa…”
Eu gostava de uma garota, ela gostava de mim (gosto de acreditar nisso.) a gente se olhava, ela ria de qualquer porcaria que eu dizia.Seu grupo de amigas suspirava e abanava uma as outras quando passavam os garotos mais velhos.
Acendi um cigarro.
Não envelheci.
Mesmo com um tremendo sabor amargo e sem graça na roupa, eu acendia cigarro após cigarro numa estranha forma que encontrei de chamar a atenção, de ouvir “Nossa ele já fuma!”, disfarçava o cheiro com amostra de perfume feminino da Avon, meu pai me abraçava e gritava “Meu filho ta pegando várias!” nos churrascos onde ele enchia a cara,mostrava para os amigos as revistas de mulher pelada que eu escondia e dançava Tchan no auge de sua embriaguez.
Até um dia que eu não tinha dinheiro para comprar nem isqueiro nem cigarro e comecei a tremer as mãos e a não pensar em nada, simplesmente nada, um negativo nirvana a me absorver.
Jurei para mim mesmo que nunca mais acenderia cigarro nenhum, que seria um bom menino, faria mais esportes, voltaria a desenhar e etc. Minha jura sem valor nenhum.
Acendi cigarro após cigarro como se tivesse fome até ver crescer o primeiro fio de barba, bigode, pelos no peito e após pouco tempo rugas e uma aparência que mesclava a cor verde com o cinza.
Envelheci.


Ai sim.
Pra não envelhecer é só fumar o do aborto.